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Sobre os afetos (ou falta deles).

por Pequeno caso sério, em 20.04.22

Já aqui assumi inúmeras vezes que sou um cagalhão seco no que concerne aos afetos. Não é coisa de que me orgulhe mas também não me envergonho. Faz parte da minha maneira de ser desde que me lembro. 

A primeira vez que tomei consciência disso foi aos cinco anos. Comecei a perceber que o facto de limpar a cara imediatamente a seguir a ser beijada por alguém, incomodava muito a senhora minha mãe. Envergonhava-a pois eu não não era propriamente discreta. Fazia-o com a mão aberta e olhando fixamente a pessoa para lhe mostrar o meu desagrado. Depois, com o tempo, fui refinando a  estratégia: encostava a face beijada ao ombro limpando assim o rasto deixado. Fosse de quem fosse. Até dos que me eram mais próximos e queridos. E confesso que ainda hoje mantenho o hábito.🙄

 

- Ai Pequeno caso sério, deves ter aí um recalcamento qualquer de infância...- alvitram vocês armadas em Freud sem divã.

Não 'migas.

Tive uma infância muito feliz, farta em tudo o que uma criança devia ter sempre: amor e família. Portanto, creio que a explicação não seja por aí. 

-Ah e tal, não gostas, não gostas, mas na adolescência não foi assim!- alvitram outra vez enquanto levantam os dois sobrolhos convencidas de que é desta que me apanham.

Se estivermos a falar de linguadões até ao esófago, então não. Há quem aprecie um bom escalope e eu respeito, mas para mim, uma endoscopia faz-se de outra forma e de preferência a dormir. E os desgraçados que tentaram mudar isso tiveram vida muito curta por estas paragens. Sorte a deles, pois foi? Isso nunca saberemos.

 

Maneiras que, resumidamente, a cena dos afetos foi coisa que nunca me assistiu. E na verdade isso sempre incomodou (e incomoda!) muito mais os outros do que a mim. 

Para os que se preocupam com isso, ou para quem possa privar com alguém que também padeça desta condição, nada temeis.

Nem sempre as pessoas verbalizam um "amo-te". Às vezes esse "amo-te" chega com outro som, como por exemplo, "Tem cuidado."; "Comeste?"; "Liga-me quando chegares"; "Fiz este prato porque sei que tu gostas"; "levei o dia contigo na ideia"; "estava desejosa de falar contigo". E por aí fora.

Em calhando, convinha descomplicar e deixar de "cobrar" o que não está na natureza da pessoa. Sugiro encarar esta coisa dos afetos como se fosse um leilão: cada um dá o que quer dar. Ou consegue, vá. E isso nunca porá em causa o que verdadeiramente sentimos. Apenas temos formas diferentes de o demonstrar. Seremos piores pessoas por isso? Não creio. Acreditem, já vi muita gaja melosa fazer e dizer coisas inacreditáveis. 

 

Há imagens que valem por mil palavras e a que se segue ilustra muito bem o que vos tentei explicar :

Screenshot_20220318-221338_Instagram.jpg

E lembrem-se, o importante não é a quantidade do que se dá . O importante é ser dado sem esforço nenhum. Cabe ao destinatário aceitar e valorizar como se de uma estrela cadente se tratasse (pois sabem de antemão que só daí a algum tempo aparecerá outro) .

csscissors.jpg

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15 comentários

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De Luísa de Sousa a 20.04.2022 às 14:34

Oh ... que texto maravilhoso
Amei. Tenho uma filha que não é nada dada a afetos (não por falta de amor) e odeia que sejam melosos com ela (deste pequenina). É a sua forma de ser e de estar, e nós respeitamos. Mas, apesar desta sua "frieza", é uma excelente pessoa, muito justa, fiel, honesta, solidária e que respeita muito os outros. Uma filha que sinto muito orgulho e que amo muito.

Beijinhos
Feliz Dia
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De Pequeno caso sério a 20.04.2022 às 21:50

Obrigada Luísa.
Pelo que descreves, a tua filha podia ser meu clone
E sabes que mais? A tua filha tem muita sorte em ter-te como mãe e tenho a certeza que o orgulho que sentes é mutuo.👩‍👧❤
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De Magui Ferreira a 20.04.2022 às 21:13

Sou um nadita assim.
Acredito que o amor nem sempre precisa de ser dito.
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De Pequeno caso sério a 20.04.2022 às 21:52

Calculei que fosses, minha blogoalmagemea.

O amor não precisa ser dito, basta ser sentido.
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De Anónimo a 20.04.2022 às 22:19

Obrigada por tudo o que partilhas !
É uma forma de afecto.
Já eu sou muito de beijos e abraços!
Daqui mando um beijo, um pacote de guardanapos e tónico facial para a limpeza...
Mena
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De Pequeno caso sério a 20.04.2022 às 23:11

Oh Mena, obrigada pelas palavras. Ainda não tinha pensado no blog como uma manifestação de afeto...mas é.
Fazer rir alguém é das coisas mais difíceis e bonitas. De cada vez que me dizem que o consegui, fico verdadeiramente de coração cheio. Obrigada pelas visitas e comentários.


P.s- os lenços e o tónico vão dar um jeitaço
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De Di a 21.04.2022 às 21:03

Concordo em absoluto, é mesmo assim, devemos aceitar o que nos dão de coração... já eu sou uma verdadeira cola, ah pois, cola cola cola...e pior, o coração sai pela boca um dia destes
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De Pequeno caso sério a 21.04.2022 às 22:34

Ai és "dessas"?
Blhéc!

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De Di a 22.04.2022 às 07:54

Só per causa das coisas, já levaste um abreijo e um abraço até aos ossos.
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De Pequeno caso sério a 22.04.2022 às 22:09

Beijos dispenso MAS ficas a saber que para mim um abraço é 1000 vezes mais genuíno.
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De Di a 22.04.2022 às 22:09

Chega para cá esses ossos
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De Daniela Barreira a 22.04.2022 às 09:51

Eu acho que sou um meio termo. Sou, decididamente, de afetos, mas também tem vezes que sou da "falta deles", preciso do meu tempo e espaço sossegada.
Mas concordo tanto, tanto com isto.

"Em calhando, convinha descomplicar e deixar de "cobrar" o que não está na natureza da pessoa. Sugiro encarar esta coisa dos afetos como se fosse um leilão: cada um dá o que quer dar. Ou consegue, vá. E isso nunca porá em causa o que verdadeiramente sentimos. (...) o importante não é a quantidade do que se dá . O importante é ser dado sem esforço nenhum."

Tão verdade e tão importante não esquecer isto. Obrigada!
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De Pequeno caso sério a 22.04.2022 às 22:04

Eu é que agradeço aquilo que comigo também vão partilhando.

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