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Já aqui assumi inúmeras vezes que sou um cagalhão seco no que concerne aos afetos. Não é coisa de que me orgulhe mas também não me envergonho. Faz parte da minha maneira de ser desde que me lembro.
A primeira vez que tomei consciência disso foi aos cinco anos. Comecei a perceber que o facto de limpar a cara imediatamente a seguir a ser beijada por alguém, incomodava muito a senhora minha mãe. Envergonhava-a pois eu não não era propriamente discreta. Fazia-o com a mão aberta e olhando fixamente a pessoa para lhe mostrar o meu desagrado. Depois, com o tempo, fui refinando a estratégia: encostava a face beijada ao ombro limpando assim o rasto deixado. Fosse de quem fosse. Até dos que me eram mais próximos e queridos. E confesso que ainda hoje mantenho o hábito.🙄
- Ai Pequeno caso sério, deves ter aí um recalcamento qualquer de infância...- alvitram vocês armadas em Freud sem divã.
Não 'migas.
Tive uma infância muito feliz, farta em tudo o que uma criança devia ter sempre: amor e família. Portanto, creio que a explicação não seja por aí.
-Ah e tal, não gostas, não gostas, mas na adolescência não foi assim!- alvitram outra vez enquanto levantam os dois sobrolhos convencidas de que é desta que me apanham.

Se estivermos a falar de linguadões até ao esófago, então não. Há quem aprecie um bom escalope e eu respeito, mas para mim, uma endoscopia faz-se de outra forma e de preferência a dormir. E os desgraçados que tentaram mudar isso tiveram vida muito curta por estas paragens. Sorte a deles, pois foi? Isso nunca saberemos.
Maneiras que, resumidamente, a cena dos afetos foi coisa que nunca me assistiu. E na verdade isso sempre incomodou (e incomoda!) muito mais os outros do que a mim.
Para os que se preocupam com isso, ou para quem possa privar com alguém que também padeça desta condição, nada temeis.
Nem sempre as pessoas verbalizam um "amo-te". Às vezes esse "amo-te" chega com outro som, como por exemplo, "Tem cuidado."; "Comeste?"; "Liga-me quando chegares"; "Fiz este prato porque sei que tu gostas"; "levei o dia contigo na ideia"; "estava desejosa de falar contigo". E por aí fora.
Em calhando, convinha descomplicar e deixar de "cobrar" o que não está na natureza da pessoa. Sugiro encarar esta coisa dos afetos como se fosse um leilão: cada um dá o que quer dar. Ou consegue, vá. E isso nunca porá em causa o que verdadeiramente sentimos. Apenas temos formas diferentes de o demonstrar. Seremos piores pessoas por isso? Não creio. Acreditem, já vi muita gaja melosa fazer e dizer coisas inacreditáveis.
Há imagens que valem por mil palavras e a que se segue ilustra muito bem o que vos tentei explicar :

E lembrem-se, o importante não é a quantidade do que se dá . O importante é ser dado sem esforço nenhum. Cabe ao destinatário aceitar e valorizar como se de uma estrela cadente se tratasse (pois sabem de antemão que só daí a algum tempo aparecerá outro) .
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