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Queria ficar calada...

por Pequeno caso sério, em 24.10.19

...mas não consigo. 

Hoje (e só hoje) interrompo o habitual registo de maluqueira que abunda neste antro pois há um assunto que me anda a mexer 'cos nerves. Ou falo nisto, ou corro o risco de sufocar e provavelmente falecer. Como calculo que não saibam o que fazer à vossa vidinha se isso acontecer, cá vai disto.

 

 

Nos últimos dias temos sido bombardeados com a notícia de um professor (?) que alegadamente se passou da marmita e bateu num aluno. Isto é tudo o que sabemos sobre o assunto. Minto. Também sabemos que com uma celeridade nunca antes vista, o dito docente (?) já foi impedido de continuar funções. Engraçado como a lei é...maleável : um primeiro ministro de um país "reage a uma provocação" de um idoso (!) em quem só não arreou uma cabeçada porque foi impedido pelos seguranças, e nada acontece. Um professor (?) depois de vários avisos a um adolescente para lhe dar o telemóvel, ser completamente ignorado,humilhado e destratado, reage, é detido. Giro pois é? É sim senhor.

Nem de propósito, dias antes, a família de um outro miúdo entra numa escola e bate nas professoras, nas auxiliares e em tudo o que se lhes cruzou à frente. O que é que lhes aconteceu? NADA!

 

Ontem à hora do almoço a cena repetiu-se : uma professora levou uma cabeçada de um aluno de 14 anos. O que é que aconteceu ao aluno? Provavelmente NADA  ou, na melhor das hipóteses, vai uns dias descansar para casa para refletir no que fez (ahahahahah) para quando voltar, ser visto pelos pares como um herói e pelos professores como uma ameaça à sua integridade física ou ao seu carrito que será convenientemente "tatuado".

 

Estes dois últimos  casos não são residuais. Infelizmente ocorrem diariamente nas nossas escolas de todos, repito, todos os níveis de ensino. Mas isso é tão banal que já ninguém liga. Nem pais, nem opinião pública e muito menos quem nos (des)governa.

É como a história do cão: se for o bicho a morder no homem, tudo certo. Se for o contrário,a notícia corre mundo.

Estranhamente, ou talvez não,foi capa de jornal o insólito (ahahahahahah) de haver muitos alunos que em outubro, continuam sem aulas pois há vagas que nenhum professor aceita. Coincidência? Pois.

A única coisa positiva no meio desta desgraça toda é que dada a falta de professores qualificados que queiram (ou será possam?) aceitar algumas das vagas existentes , o nosso (des)governo decidiu abrir portas a quem possua habilitação própria para se candidatar às vagas disponíveis o que na prática quer dizer que podemos, por exemplo, apanhar um engenheiro a dar matemática ou química. Nada contra. Toda a gente sabe que dar aulas é coisa que qualquer um faz. Ensinar é que já são outros quinhentos.

Mas o que me deixa mesmo feliz é que esta "novidade" vai permitir aos habituais treinadores de bancada , que acham que ser professor é canja, experimentarem as maravilhas do nosso sistema de ensino .

Queria ver.

Queria ver quantos dos que se insurgem atrás de um ecrã, agarrarem agora o boi pelos cornos usando as "armas" que o  sistema permite.

O mais certo era um mês depois, encontrá-los numa greve.Ou de atestado médico.   

#pimentanocudosoutrosérefresco

 

Ironias à parte, o que está a começar a revelar-se é muito mais sério do que possamos imaginar.

As escolas são micro sociedades reveladoras dos problemas de fundo que toda a sociedade civil atravessa. 

Miúdos com uma carga horária brutal com pais sem tempo para eles: uns porque têm de trabalhar, outros porque estão demasiado ocupados com as internetes  e os reality shows do momento.

Miúdos com dificuldades de aprendizagem num sistema entupido de casos e sem capacidade de resposta .

Reformas e contra reformas onde só se inventam toneladas de papéis e decretos para inglês ver mas que, na prática, não melhoram em nada a vida dos miúdos .

Professores completamente rebentados em meados de outubro, mal pagos, insultados e injustamente usados para justificar o estado a que o ensino chegou.

Sabiam que, por exemplo, é frequente um professor dar material do seu ordenado chorudo aos alunos para que estes consigam trabalhar? E lanche? Sabiam que também não é raro um professor matar a fomeca àquele miúdo que não trouxe lanche pela enésima vez? Pois. Mas isto não faz capas de jornal. 

 

Já desabafei isto com amigas minhas que me "gozam" e me chamam arauto da desgraça.

Por muito menos do que se passa nas nossas escolas já houve tiroteios em estabelecimentos de ensino por esse mundo fora.

 

Queira Deus que eu esteja enganada e honestamente, 

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Acho que era bom que estivéssemos TODOS.

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15 comentários

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De Calimero a 24.10.2019 às 10:37

olha..subscrevo..!


A montanha pariu um rato..sabes como e???


Não se da conta destas coisas e tantas outras,,´´

obrigda pela tua partilha,,

muito oportuna!
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De Pequeno caso sério a 24.10.2019 às 19:32

Tens nada que agradecer.
Eu é que agradeço que tenham paciência para me ler e ainda comentar.
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De Gaffe a 24.10.2019 às 11:01

Li que o "professor" agressor é técnico de informática, mas ando aterrada com as "fake news".
O problema agudizar-se-á dentro de 5/10 anos quando uma elevadíssima % de professores se reformar. A média de idade dos docentes é de 55 anos, neste momento, e não existem alunos nos cursos via ensino ou que possibilitam uma formação posterior em pedagogia.
Vamos voltar a ter padres a leccionar Português e engenheiros, Matemática e Ciências (olha! o Sócrates podia pensar nisto!)

Volto a repetir: vamos caminhando lenta e alegremente para um estado democraticamente salazarento.
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De Pequeno caso sério a 24.10.2019 às 19:38

Isto que está a acontecer agora é só a ponta do iceberg.
Toda a gente assobia para o lado porque acha que o problema não lhe diz respeito. Só que este é um problema estrutural que mais tarde ou mais cedo vai atingir toda a gente.

Neste caso concreto não há fake news. O docente (?) em causa não tinha essa formação de base mas tinha habilitação própria para poder exercer essa função.

É como dizes : daqui a poucos anos será o caos nas escolas e depois, quando os paizinhos ficarem com os meninos em casa por falta de professores meses a fio, aí e só aí, perceberão finalmente a merda que andaram a fazer.
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De Anónimo a 24.10.2019 às 11:52

Está tudo dito, mas infelizmente não vai fazer-se nada! Os professores não são senhores de "ralhar" porque os meninos podem ofender-se. Suponho que em casa será a mesma coisa, tadinhas das criaturas tão inocentes! E depois pagam uns pelos outros... em todos os niveis, em todos os lados... era preciso alguém meter mãos na massa para se mudar e isso dá muito trabalho...
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De Pequeno caso sério a 24.10.2019 às 19:40

Dá muito trabalho e não interessa ao governo ter pessoas que saibam pensar. Quanto mais amorfos, melhor pois assim não se insurgem. Comem e calam.
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De amarquesademarvila a 24.10.2019 às 12:19

Eu não diria melhor!
Já o disse algures, fico assustada quando vou a reuniões de pais nas escolas das minhas filhas. Assustada com os pais. Pais que educam o seu "menino(a)" como se fosse a última bolacha do pacote, um santo em formação, ai de alguém que afronte o seu menino(a)... as crianças são tratadas pelos pais e pelo sistema de ensino como umas incapazes e umas intocáveis. Incapazes porque, coitadinhas, não podem ser responsabilizadas por nada (É para fazer um trabalho de ciências? O pai faz! É para justificar não teres levado o material para a escola porque estiveste ocupado(a) com o Instagram? A mãe justifica!... e por aí fora.). Intocáveis porque ao mínimo recado para casa o encarregado de educação, desculpando sempre o seu rebento, vai pedir satisfações ao professor quando, como dizes, não invade a escola para o espancar.
Ainda ontem a minha filha me dizia: - O "fulano" está sempre no telemóvel durante as aulas. A professora disse-lhe que ia manda recado para os pais. A resposta dele foi: Mande! A minha mãe depois vem cá falar consigo e vamos ver no que dá..." Isto em tom de ameaça. Ainda me lembro de tremer quando os meus professores me ameaçavam (por muito menos) falar com o meu encarregado de educação. O mesmo acontece com as minhas filhas. Responsabilizo-as sempre!
Isto é assustador. Depois temos adultos cujos pais vão com eles a entrevistas de emprego (true), inscrevê-los na faculdade e levá-los lá no primeiro dia de aulas pois podem não encontrar a sala (Verdade! Contado em reportagem por uma professora universitária). É assustador.
Por aqui me fico, já escrevi um testamento. Desculpa! Mas este é um tema que me preocupa muito.
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De Pequeno caso sério a 24.10.2019 às 19:45

Muito obrigada pelo comentário. Mesmo.


As reuniões de pais são apenas uma parte daquilo a que os professores estão sujeitos hoje em dia.
Toda a gente sabe que em casa eles não são assim e que os paizinhos conhecem muito bem os filhos que têm. Só que não.

Isto era muito simples de resolver.
1- devolvia-se autoridade aos professores
2- os pais dos prevericadores tinham de ser efetivamente responsabilizados pelos atos dos filhos, por exemplo, com cumprimento de serviço comunitário na escola dos filhos e/ou retirada de subsídios atribuídos.

Ias ver se isto não melhorava.
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De Magui Ferreira a 24.10.2019 às 20:34

Quando uma das minhas filhas andava no ciclo, a turma era péssima em comportamento. A miúda tinha pavor aquando das reuniões dos encarregados de educação porque sabia que eu ou o meu marido falávamos, e porquê? Porque muitos dos outros pais iam depois fazer "queixinhas" aos filhinhos que os pais da X diziam isto e aquilo, olhem o despautério, falarmos para tentar arranjar solução para o problema.
Nós dias a seguir às reuniões alguns desses meninos gozavam com a minha filha!!!

Francamente, não sei se o problema não será cultural.
Uma amiga que vive num país da UE, tem um filho na escola, país esse, onde os professores e funcionários não podem sequer ajudar a vestir um casaco às crianças, é proibido esse tipo de aproximação e no entanto não conhece casos graves como os que se passam aqui.






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De Pequeno caso sério a 24.10.2019 às 22:48

Isto passou do 8 ao 80.
Dantes, bastava olhar para o colega do lado e comiam logo.
Agora, o professor quase tem de pedir licença aos meninos para lhes dirigir a palavra.


Era responsabilizar criminalmente os paizinhos pelos atos dos filhos e tu ias ver se isto não mudava.

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De Sarin a 25.10.2019 às 18:52

Supunha que ias falar do médico que tem processos disciplinares desde 2011 e que agora é vão analisar todos. Espero que não seja até às últimas consequências, essas está visto que são irrevogáveis.
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De Pequeno caso sério a 25.10.2019 às 21:55

Também podia ser pois mexe-me igualmente com as entranhas.
Mas considero o que se passa nas escolas tão vergonhoso, mas tão vergonhoso que tinha de vomitar isto aqui também já que passo a vida a moer quem me rodeia com isto.
Por acaso gostava de saber a tua opinião (que muito considero) sobre este assunto. Pode ser?
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De Sarin a 25.10.2019 às 22:00

Dar-te-ei mais logo - muitos argumentos e tenho que começar e terminar um relatório. Mas sim, se não hoje, amanhã :)

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